terça-feira, 17 de maio de 2011

Bossa´n Roll & Bluessamba!

Escolhi, como primeiro texto da minha coluna nesta nova e bem-vinda revista Perfil & Fama, traçar um paralelo entre dois ritmos que tiveram, surpreendentemente, origens e desenvolvimentos mais ou menos semelhantes, embora não sejam partes da “mesma cultura”, posto que emergiram em países diferentes e foram separados por uma considerável distância geográfica: o Blues e o Samba.

O Samba é um ritmo que tem suas raízes fincadas na cultura africana, assim como o Blues. Estes dois ritmos, em seus primórdios, eram praticamente ignorados pelas “elites brancas” do Brasil e dos Estados Unidos, respectivamente, que preferiam música mais “sofisticada” a ouvir os apelos dos “Bluesmen” e a malemolência, mais romântica do que sensual (naquela época!), dos Sambistas.

Entre o fim da década de 20 e o começo da de 30, grandes expoentes destes dois movimentos, que vieram a ser considerados como verdadeiras pedras angulares das culturas musicais americana e brasileira, começaram a emergir, embora o talento deles não fosse reconhecido, à época, da forma que são nos dias atuais.

No Brasil, surgiam Noel Rosa (um dos poucos brancos deste movimento), Heitor dos Prazeres, Pixinguinha, Sinhô... Nos EUA, surgiam Bo Carter, Son House, Willie Brown e o maior deles (talvez o maior de todos os tempos!), Robert Johnson.

Algumas das composições destes gênios conseguiram extrapolar as barreiras raciais e econômicas e, mesmo àquela época, chegaram a fazer relativo sucesso, embora ainda fossem alvo de grande preconceito e estigmatização.

A pequena difusão destas verdadeiras obras-primas já foi suficiente para que começassem a exercer seu poder de transformação cultural, capaz de mitigar preconceitos e promover integrações emocionantes, como só a arte é capaz de fazer.

Com o seu poder, o Samba dos negros do morro, o Samba nascido no Recôncavo Bahiano, o Samba do Mestre Donga, gerou verdadeiras epifanias musicais em muita gente. Mesmo assim, pode-se dizer que uma parte de sua massificação se deu por conta de alguns “ jovens brancos” que, ao experimentarem de toda a riqueza do Samba, inebriaram-se nele e o reinventaram, através da incorporação de uma batida originária de um outro ritmo de raízes negras; o Jazz.

Estou falando da Bossa Nova que, apesar de ter sido encarada, no começo, como algo que “traía” o samba brasileiro, acabou se demonstrando como sua grande embaixadora, conseguindo estreitar importantes “laços diplomáticos” entre este e outras culturas, no Brasil e no exterior. Não são poucas as louvações feitas por compositores como Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes a grandes Sambistas como Cartola, Pixinguinha e tantos outros. Tá aí o Samba da Benção, que não me deixa mentir!

No tocante ao Blues, pode-se dizer que ele sofreu este mesmo fenômeno de “massificação branca”, embora de forma ainda mais inusitada. Antes de cativar a juventude americana, o Blues de Muddy Waters e Robert Johnson (que morreu aos 27 anos e não usufruiu, em terra, de suas conquistas!) atravessou o atlântico e fez estrago em alguns dos jovens ingleses.

Na década de 60, os já reverenciados Rolling Stones, Beatles e Cream (do guitarrista Eric Clapton) foram até os EUA para conhecer seu maior ídolo: Muddy Waters! Os próprios músicos americanos achavam muito estranho aqueles jovens brancos de sotaque esquisito (inglês britânico) que tocavam com eles numa alegria e numa satisfação tremendas!

Esta integração dos idolos da geração jovem da época com os mestres do Blues, com toda a certeza, fez com que mais garotos e garotas procurassem se inteirar mais sobre este ritmo, que antes era algo obscuro e tido como “inferior”. Veja só: garotos brancos ingleses tiveram participação decisiva na massificação do blues dentro dos Estados Unidos da América!

O que torna tudo isso ainda mais interessante é que esses dois processos caminharam, mais ou menos, numa cronologia paralela! A Bossa Nova abria os horizontes do Samba, ao mesmo tempo em que o Rock´n Roll britânico chutava as portas do “mundo branco” ao Blues!

Existem muitos paralelismos como esse em nossa história. Coisas que não têm, necessariamente, relações umas com as outras, mas que se desenvolvem da mesma maneira, ao mesmo tempo, como se governadas por uma força comum. Não cabe a mim dizer o que é tal força. Prefiro, sinceramente, aproveitar tudo isto que ela gera!

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