terça-feira, 29 de julho de 2008

JESUS CRISTO, UM BANQUINHO E UM VIOLÃO

Jesus tocava violão. Não, eu não li isso em nenhum dos livros bíblicos, muito menos nos que não foram incorporados, como é o caso dos manuscritos do Mar Morto ou coisa do gênero...

Isso é um devaneio meu, mas que eu acho ser totalmente plausível, pelo caráter messiânico do violão, na história da música.

O violão sempre foi considerado um instrumento simplório, popular e até “indigno”, por transformar em música alguns “pecados melódicos”...

O violão sempre esteve próximo aos pobres, pronto para ouvir os lamentos dos sofridos e, miraculosamente, fazer destes o alento de muitos outros.

De berço pobre, o violão sempre teve dificuldade de entrar nas elites sinfônicas e filarmônicas, sem que fosse alvo dos preconceitos pianísticos, ou dos comentários agudos, graves e ácidos de seus primos ricos: Violinos, Cellos, Contra-baixos...

Contudo, todo este desprezo da elite musical deu ao violão as armas para a sua própria revolução... Ao violão, foi dado o povo.

Mas o violão não é um revolucionário belicoso, como um Guevara ou um Garibaldi... O violão sempre foi humilde e pacifista, como Jesus Cristo e Ghandi.

Mesmo quando experimentou seus dias de glória, o violão jamais tripudiou sobre os seus irmãos ingratos... Desde toda a sua grandeza espiritual, o violão os perdoou, e por muitas vezes convidou-os a partilhar do Paraíso que conquistou... Mas o orgulho de muitos acabou por afastá-los dos braços abertos e da melodia suave do Violão.

Na história da música Brasileira, o violão exerce esse mesmo papel. Nos anos 40 e 50, com todo o reconhecimento de Villa-Lobos e suas magníficas composições, o instrumento mais utilizado e admirado pelos “bons” era o sempre casto Piano... O violão era tido como um instrumento da “plebe”, dos “Nêguinhos do Botequim”, dos “Ignorantes”... O que não era nenhuma novidade para ele.

Contudo, um dos maiores “pecadores” da nossa música, ao descer da Bahia para o Rio de Janeiro, acabou sendo alvo de uma “epifania violonística”, e começou a apalpar suas cordas com um balanço diferente e revolucionário... Foi então que se criou a Bossa Nova, que se tornou o maior movimento musical da nossa história.

Para a “evangilização” do público e dos críticos, o Violão contou com apóstolos perseverantes e que largaram tudo o que tinham para seguí-lo, como também aconteceu com Cristo e com os seus...

Paralelamente, decidi comparar alguns dos apóstolos de cristo com alguns dos apóstolos do violão. Pedro, seria João Gilberto: a Pedra Fundamental da Bossa Nova. Thiago, seria Vinícius de Moraes, uma liderança inspiradora e que espalhou a Boa (e a Bossa) Nova por todo o mundo. Paulo seria Tom Jobim, por ter uma relação estreita com os “Romanos da Música” e se converter ao apostolado do violão, disseminando seu “evangelho” a todos os outros instrumentos e ouvidos, o que arrebanhou muitos fiéis e formou diversos sacerdotes da “fé violonística” por toda parte.

Não podemos nos esquecer também dos Profetas do Violão, que antecederam esse Novo Testamento, iniciado com a criação da Bossa Nova.

Podemos dizer que o antigo testamento da Bíblia do Violão seria o Samba. E, dentro deste, encontraríamos as grandes raízes da Bossa Nova, como Pixinguinha (João Batista) e Cartola (Isaías). Sem as profecias musicais destes inspirados mestres, tudo o que ocorreu depois poderia, simplesmente, deixar de existir.

Nos dias de hoje, com o sucesso de um de seus filhos mais queridos, a Guitarra Elétrica, o Violão pode descansar um pouco de vez em quando... Mas quando chega aos palcos, ele continua arrancando suspiros de todos...




José Nantala Bádue Freire
29 de Julho de 2008

terça-feira, 22 de julho de 2008

BRASIL, CAMISA 10!

Não é a toa que o Brasil é o país do Futebol... Se o nosso país pudesse ter uma profissão, por sua personalidade e sua geografia, ele seria um jogador de futebol... E daqueles bem folclóricos, como um Garrincha, por exemplo! Apoiado nas pernas tortas e rápidas das regiões Sul e Sudeste! Dotado de um frondoso e imponente tórax, representado no nosso Nordeste! Com um pulmão de dar inveja, na nossa região Norte! E alimentado por um belo estômago, como é o nosso Centro-Oeste! Mas a nossa alma... Estaria sofrida e vazia, como é o interior do nosso país faminto... A cabeça? Bom, ela deveria ser Brasília mas, assim como acontece com muitos dos nossos boleiros, ela está bem perto das regiões pubianas e não funciona muito bem, por ser facilmente envolvida por emoções não muito castas...

Nos vestiários, o Brasil oraria para todos os credos e calçaria suas ostensivas chuteiras de ouro, que comprou junto com o carro importado, assumindo, assim, uma dívida pesada e desnecessária, mas que era fruto de seu hedonismo descontrolado e que lhe fazia, durante algumas noites de consciência, repetir a si mesmo: “Por que ostento minhas riquezas para esconder minhas pobrezas, ao invés de usar uma para resolver a outra?!” Mas sempre que fazia estes questionamentos, puxava um “baseado” ou tomava um gole de whisky para relaxar e, finalmente, esquecer...

Logo que estivesse pronto para entrar em campo, lembraria de sua infância miserável, sentiria um friozinho na barriga e uma dorzinha na consciência por não conseguir evoluir nas quatro linhas da lousa o mesmo que evoluiu nas quatro linhas do gramado... Mas entraria em campo de cabeça erguida, embora esta ainda estivesse muito ligada às regiões púberes...

Durante a partida, daria dribles desconcertantes, completaria lances de efeito inimagináveis, correria feito um louco, mas, quando precisasse levantar a cabeça, armar uma tabela ou fazer um lançamento, titubearia... E perderia a bola.

O jogador Brasil só marcaria seus gols, quando fosse deixado cara a cara com o goleiro, pois nesta situação só há duas coisas a se fazer: driblar ou chutar. Marcaria muitos e perderia outros tantos... Com certeza, o treinador não poderia contar com este tipo de jogador em todas as partidas, preferindo escalar Brasil somente em jogos onde a habilidade individual poderia fazer alguma diferença.

Ganharia muitos torneios, mas nunca seria a principal arma do seu time. Seria o jogador do espetáculo, que joga para a torcida, pouco se importando para o resultado de suas jogadas. Contudo, viveria envolvido em escândalos ligados às noitadas, às mulheres e a todo o tipo de vício bohêmio... Todos o adorariam... Mas ninguém apostaria muitas fichas nele.

O jogador Brasil morreria pobre. Quando atingisse, mais ou menos, os seus 50 anos, seria um alcóolatra desesperado, buscando uma saída para a sua situação e percebendo que tudo aquilo que foi gasto no passado seria justamente o que lhe faltaria no futuro... E depois de mendigar aos seus amigos, aqui e ali, conseguiria somente o suficiente para viver até morrer... Sem nada para deixar aos seus filhos além de memórias...



José Nantala Bádue Freire.
22 de julho de 2008.